Caracol/Caranguejo
Um ensaio fotográfico sobre mudança, despedidas, plástico bolha e animais marinhos.
Arrancar band-aids em feridas abertas nunca foi fácil e foi por isso que demorei tanto para voltar aqui e escrever sobre algo que tem sido bastante pesado para equilibrar nas prateleiras da minha mente nos últimos tempos.
Não acredito que a ferida já se fechou, mas aqui vamos nós.
No começo deste ano recebemos uma mensagem da proprietária do nosso apartamento nos avisando que ela havia decido retirar o imóvel do contrato de aluguel e entregá-lo para sua filha. Ela nos deu até o final do ano para nos mudarmos, mas à partir do momento que recebemos a notícia, nossa casa já não parecia mais nossa - e de certa forma, nunca foi.
Nós sempre nos demos muito bem com a proprietária porque ela compartilhava de algumas simpatias e projeções conosco em relação a sua filha, também LBGT+, artista e tutora de gatos. Com dificuldades em se estabelecer profissionalmente no mundo das artes e da comunicação – assim como eu – a filha que estudava no interior se casou e decidiu voltar para São Paulo, para as asas de sua mãe, em um apartamento no final da Av. Paulista.
Diferente dela, eu não sou fruto de pais que possuem bens tão altos quanto apartamentos no centro de São Paulo e morar no mesmo lugar que foi plano de fundo de tantas fotos da minha adolescência sempre teve gosto de validação no fundo da minha garganta; um status que adquiri e que agora tenho dificuldade de abrir mão.


Penso que já tive duas grandes mudanças de casa até aqui, mas as duas foram muito bem planejadas e simbolizaram movimentações de crescimento e grandes realizações pessoais.
A primeira foi quando deixei a casa dos meus pais em Guarulhos para ir morar em São Paulo com minhas melhores amigas e o meu gato Sebastião, provando para quem tivesse que provar que eu conseguia ser meu próprio provedor e que todas as escolhas tortuosas que tivera até ali tinham valido a pena.
A segunda, depois de me formar na faculdade e querer viver uma vida a dois com o amor da minha vida, foi quando fui morar na casa que agora deixo para trás, adotei mais dois gatos – a Alana e o Thom – e comprei móveis e quadros que refletiam quem eu havia me tornado, me davam forças para enfrentar os novos desafios da carreira e faziam sentido com o que eu queria mostrar para o mundo que se desenrolava em minha frente.
Dessa vez, a sensação que fica é de rompimento, de caminho cortado pela metade e, por mais que eu entenda que durante o romantismo as pessoas estavam vivendo a contemporaneidade de sua época e não tinham um termo sofisticado para enfeitar o presente, ainda tenho ansiedade em dar nome a esta nova fase da minha vida.
A vida não anda sendo fácil e eu tenho tido muita dificuldade de trabalhar. Ganhei uma bolsa para estudar montaje y color em Bogotá, fiz cursos de novos softwares, tento me manter atualizado, mas tem sido cada vez mais difícil conseguir ser chamado para coisas, trazer dinheiro para casa e, consequentemente, me sentir uma pessoa importante. Parte do status que falei anteriormente também vem dessa ideia de trabalhar com o que eu gosto e ser uma pessoa criativamente ativa, morando no centro dessa criatividade.
A dor não vem em um lugar no qual eu não tenha pra onde ir, de que vou ter que voltar a morar com os meus pais ou coisa do tipo, mas sim em aceitar que talvez a vida que eu estivesse vivendo ali não estivesse se auto gerindo; de um lugar de perda de certos privilégios que nem sempre estiveram ali, de dizer adeus ou até logo para espaços e acessos que conquistei, mas que nesse momento são muito pesados em minhas mãos.
Ter construído tanto, seja através das memórias ou dos garimpos, me pergunto o que fazer com aquilo que não cabe em caixas, que tenho vontade de enrolar em plástico bolha e fazer durar para sempre.
Por isso, nos últimos dias do apartamento antigo, pedi ajuda de um querido casal de amigos1 para fotografar a mim e a minha família em nossa casa roubada e tentar dar significado a todo o tempo que moramos lá em uma tentativa de definir a palavra ‘lar’.
Segundo o dicionário online Michaelis, lar é "casa onde habita uma família; domicílio, habitação". E essa definição, sendo a mais direta de todas, parece faltar sentimento. Sem sombra de dúvidas, se alguma palavra brilha nesta descrição, é a palavra ‘família'.
Ser uma pessoa LGBT+ e ser amado pela família que me criou, assim como ter conseguido construir um núcleo familiar com pessoas que encontrei pelo caminho e que me ajudam a compreender tanto de mim e do mundo sempre me fez ter uma vida com tempero.
E foi com essas pessoas, presentes em muitas das minhas casas, que eu fui feliz. Em festas, noites temáticas, jogando jogos de tabuleiro, vendo filmes, experimentando minhas comidas, rindo, chorando, dançando, cantando e tirando fotografias destas memórias que, no fundo, imprimem na gente feito tatuagem.
Na música, encontrei outras definições para o termo lar. Em A Place Called Home, PJ Harvey o define como um lugar de esperança, que um dia irá chegar. Em This Must Be the Place, David Byrne fala de um lugar perfeito no tempo-espaço em que tudo se encaixa e você se sente estável e confortável. Em Home, James Murphy identifica o lar como o lugar onde seus amigos vão te levar depois de você beber demais. Em Chinese Satellite, Phoebe Bridgers descreve o desejo de acreditar em outros tipos de vida e chama um espaço que ela ainda não conhece - e que talvez nunca exista - de casa.
Muitas outras canções falam sobre casa ser uma pessoa, o lugar em que o coração está ou qualquer lugar que se estiver com a pessoa amada. Me pergunto se quando Pinóquio foi engolido por Monstro e encontrou Geppetto vivendo dentro da baleia, ele se sentiu em casa.
Me peguei pensando nos caracóis e em como eles andam por aí com suas casas nas costas, mas minha casa já mudou inúmeras vezes, nunca nasceu colada ao meu corpo e não vai me matar se se soltar de mim – por mais que assim o pareça nos últimos dias.
Me lembrei de um vídeo que vi no Tiktok de uma pessoa que fazia carapaças de vidro estilizadas para uma certa espécie de caranguejo que troca constantemente de concha, o caranguejo-eremita. Me diverti com a ideia de um bichinho tão pequeno entrando no QuintoAndar e fazendo um alerta de concha no app, recebendo por e-mail ou Whatsapp uma seleção de conchas à beira mar, mesmo sabendo que só poderia bancar em regiões mais afastadas.
Talvez eu seja uma mistura de caracol e caranguejo, formando meu lar metade de coisas que fazem parte da minha essência, como as memórias que eu vivi até aqui e que quero guardar dentro de mim e a outra metade com as coisas materiais e estéticas que mais refletem o meu interior, como quadros e pecinhas de cerâmica, sempre escolhendo piso de taco e lavanderia separada da cozinha.
Ou talvez a lição maior que eu devesse tirar disso tudo é que está dentro da natureza se adaptar e que é possível transformar quaisquer quatro paredes – seja de madeira, concreto ou carne de baleia – no meu lar. Fui feliz até aqui e, com sorte, serei novamente.
Este post foi concebido durante muitos dias, ao som de várias músicas sobre o conceito de lar, casa ou apartamento. Mas a que mais esteve presente foi uma que não tinha nada a ver com isso: One Day de Sharon Van Etten.
Todas as fotos desta postagem foram tiradas pelo meu amigo pessoal Gabriel Canazzi com a ajuda da ilustre Clara Caldas.












“Ou talvez a lição maior que eu devesse tirar disso tudo é que está dentro da natureza se adaptar e que é possível transformar quaisquer quatro paredes – seja de madeira, concreto ou carne de baleia – no meu lar. Fui feliz até aqui e, com sorte, serei novamente.” Uau! Que coisa mais linda! O amor transbordava nas paredes deste e de qualquer lar que vcs morarem 💘
"Talvez eu seja uma mistura de caracol e caranguejo, formando meu lar metade de coisas que fazem parte da minha essência, como as memórias que eu vivi até aqui e que quero guardar dentro de mim e a outra metade com as coisas materiais e estéticas que mais refletem o meu interior, como quadros e pecinhas de cerâmica, sempre escolhendo piso de taco e lavanderia separada da cozinha."
Eu sou alguém mais caracol que caranguejo com certeza, e o que eu posso dizer é que sempre dá pra embrulhar aquele açucareiro de cerâmica bem embrulhadinho e levar na mala pra qualquer lugar do mundo. Te amo!